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Filmes esquisitos

Nós gostamos mesmo é do escurinho.


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30 Junho

Filosofia da alcova

Quem viu "Pal Joey" ("Meus dois carinhos"), dirigido por George Sidney em 1957, deve se lembrar como foi difícil para o Sinatra (o Joey do título) decidir-se entre a Kim Novak, no papel de dançarina tímida de boate, e a Rita Hayworth, como stripper aposentada pós-golpe do baú, ainda por cima porque os três passam o filme cantando aqueles standards matadores da dupla Rodgers/Hart ("The Lady is a tramp", "I could write a book", "Bewitchted", etc). Com sua sabedoria de anos de nudez e prostituição, a Rita faz também o melhor (e mais breve) comentário sobre a filosofia schopenhaueriana que se tem notícia na música de entretenimento: "I was reading Schopenhauer last night / And I think that Schopenhauer was right". Para ouvi-la em meio a um baixar de zíper e outro, clique aqui.
19:59:45 - Zeno - Comentar

25 Junho

Definição de documentário

"É um filme sem mulheres; se houver uma única mulher nele, então é um semi-documentário".

Harry Cohn, chefão da Columbia Pictures

(crdt fred zinnemann, an autobiography)
18:32:38 - Zeno - 6 comentários

14 Junho

Jabá hardcore

O segundo melhor diretor Valter em atividade no cinema brasileiro (o primeiro, claro, é o Lima Jr., e o terceiro, muitos furos abaixo na conta corrente, é o Salles), o irmão camarada Valter José, conhecido no circuito USP/Boca do Lixo como o único diretor de filme pornô que mora com os pais, ou ainda o único cineasta a misturar, num mesmo plano-seqüência, Proust, Jimi Hendrix e dupla penetração, manda notícia do lançamento de seu mais recente obus cinematográfico, Anus Calientes, lançado em DVD pela produtora Sexsite. Diferentemente dos outros dois Valters, porém, o nosso ainda não chegou a um estágio da carreira que lhe dê a conhecida autonomia do "final cut", o direito ao corte final com o acabamento desejado pelo diretor, o que significa que o filme sofreu, segundo seu relato, algumas imperícias nas mãos de um editor pouco afeito às sutilezas do mestre. De qualquer modo, como Valter José tem credibilidade suficiente junto ao público amante das artes contorcionistas (é ele quem assina a direção do goethiano "Eróticas Criaturas 4"), só nos resta recomendar o filme para nossa seleta e latejante audiência.
18:46:23 - Zeno - 2 comentários

03 Junho

La guerre est finie (1966)

Ativista em crise ideológica e de idade repensa seu passado, suas atuais ações e o que vai fazer da vida no futuro. Não, não é o Rui Falcão. É o Yves Montand no papel de um militante antifranquista no filme dirigido por Alain Resnais em 1966. Não é, propriamente, um filme esquisito como os demais desta semana, pois costuma ser programado com alguma (pouca?) freqüência nas boas casas do ramo, mas vai pra lista porque serviu para descobrir que eu não me lembrava de um único fotograma mais de vinte anos depois de ter visto o filme pela primeira vez, o que faz um sujeito pensar se já não está na hora de rever aquelas opiniões toscamente elaboradas à época sobre a cinefilia em geral e sobre manias e preferências em particular. Se o filme não está à altura de outras coisas que o próprio Resnais fez, ainda assim vale uma espiada pela lindeza das imagens p/b (e a cópia em DVD, lançada nos EUA pela Image, está impecável), pela excelente idéia dos flashbacks e flashforwards espalhados pelo filme, e pela seqüência do encontro inicial entre Montand e a "Aparaissant pour la première fois Geneviève Bujold", em que Resnais retarda até o limite o corte entre as cenas, explorando a capacidade da dupla de expressar uma baciada de sentimentos postos nos rostos deles – e como seria diferente? – pelo próprio olhar do espectador.

(da série Semana do Cinema Francês Esquisito no Hipopótamo Zeno)
18:19:43 - Zeno - Comentar

02 Junho

Mauvaise Graine (1934)

Já comentamos o lançamento do filme em DVD aqui no blog. Vista e deglutida a raridade, dá pra dizer que este primeiro filme de Billy Wilder, feito ainda na França (depois da fuga às pressas de Berlim e antes de ele embarcar para a América), tem várias coisas batutas: uma filmagem nervosa e meio "bruta" (isto é, sem polimento hollywoodiano), seqüências inventivas e brincalhonas herdadas da melhor tradição do cinema mudo e um registro curioso do que era Paris naquele tempo, já que o filme traz diversas cenas filmadas diretamente nas ruas e praças. De quebra, tem ainda a belezura da Danielle Darrieux ainda menor de idade (ela está viva e forte, com mais de cem filmes nas suaves costas), e a música, com temperos jazzísticos, é de Franz Waxman, que também fugiria para Hollywood depois e trabalharia novamente com Wilder em mais quatro filmes. Dá pra encomendar pela nunca assaz louvada CDPoint por R$ 99,57 (fora nossa comissão).

(da série Semana do Cinema Francês Esquisito no Hipopótamo Zeno)

(para outros textos do blog sobre Billy Wilder, veja aqui, aqui, aqui e aqui)
13:40:45 - Zeno - 21 comentários

01 Junho

Les Jeux Interdits (1952)

Dirigido por René Clément, o filme representa um dos pontos altos daquilo que a geração posterior do Cahiers du Cinéma chamava ironicamente de Cinema de Qualidade, ou Cinema do Papai, devidamente esculhambado pelo Truffaut num artigo célebre (“Uma certa tendência do cinema francês”). O Fla-Flu, resumido bruscamente, punha de um lado Clément, Clouzot e Duvivier como representantes de um cinema quadrado e palavroso (com boa parte da culpa residindo na dupla de escritores que roteirizou 9 em cada 10 filmes franceses importantes a partir da década de trinta - Jean Aurenche e Pierre Bost, que fazem também a adaptação deste “Les Jeux Interdits”), e do outro Renoir, Becker, Bresson e Tati, como autores de uma mise-en-scène especificamente fílmica e contrária a um realismo psicologizante convencional. Apesar disso, o filme tem qualidades óbvias, a começar pela dupla de atores mirins que conduz a trama (especialmente a menina, com cinco anos à época), e o impacto das cenas iniciais, que reproduzem um ataque aéreo alemão durante a Segunda Guerra, permanece fortíssimo. A edição francesa do filme em DVD, pelo selo Studio Canal, traz vários extras bacanas, como uma longa entrevista atual com a ex-garotinha, Brigitte Fossey, que depois emplacaria carreira adulta no cinema (trabalhando inclusive com o próprio Truffaut, em “O homem que amava as mulheres”), e que faz um comentário interessante sobre o caráter manipulador/“Lady MacBeth” que sua personagem traz na relação dela com o garoto. Há também um pequeno trecho de uma entrevista antiga do diretor Clément para a TV francesa, em que ele dá uma escorregada cabotina ao comentar, com modéstia mal disfarçada, que não, não tinha noção à época de estar rodando uma obra-prima mundial. Quando do lançamento, o filme foi duramente criticado por trazer personagens infantis sofrendo a morbidez da guerra, mas depois ganhou vários prêmios internacionais (com Veneza à frente) e foi sucesso inclusive na França.

(da série Semana do Cinema Francês Esquisito no Hipopótamo Zeno)

(agradecimentos a laurent c., pelo empréstimo)
13:09:38 - Zeno - Comentar

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