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Filmes esquisitos

Nós gostamos mesmo é do escurinho.


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15 Outubro

Funeral em Berlim (1966)

Varig, Varig, Varig

Pra quem viu o filme em uma longínqua madrugada insone (em várias também serve) da TV, a boa notícia é que a cópia em DVD está com imagem excelente e preserva o formato widescreen original, no lugar das costumeiras mutilações da tela cheia televisiva. O filme, o segundo de uma série de três, e o personagem principal, o espião desglamourizado Harry Palmer, foram vendidos à época como antídoto para o escapismo bondiano, mas é curioso perceber que a equipe de realização dos filmes (o produtor Harry Saltzman, o diretor Guy Hamilton, o cenógrafo Ken Adam) é a mesma que cuidava da série 007 – ou seja, ganhavam dinheiro dos dois lados da bilheteria e de um lado só da Cortina de Ferro. Não me lembro muito do livro, lido num pocket meia boca desses de aeroporto, mas não era nenhum John Le Carré da boa fase (embora o autor, Len Deighton, também tenha corrido na mesma raia de Carré nos anos sessenta, a da “espionagem com cara humana”). Mas espionajófilo ou berlinófilo que se preze não vai perder a chance de acompanhar personagens ambíguos, cenários decrépitos e uma trama enrolada que parece não ir a lugar algum – o (bom) cardápio costumeiro dos filmes negros da Guerra Fria. Até os táxis da cidade eram pretos nessa época. E a propaganda da Varig era, suponho, gratuita.
07:10:00 - Zeno - 2 comentários

13 Outubro

O Congo e a Sétima Arte

Por conta do entusiasmo pelo último filme de Michael Mann, Colateral, resolvi ir atrás do filme anterior de Mann, "Ali", de 2001, que acompanha a carreira do boxeador desde os tempos de Cassius Clay até o estabelecimento da lenda Muhammad Ali. Vendo o filme, descubro, ou recordo, já não sei, que a famosa luta entre ele e George Foreman aconteceu no Zaire, (ZaÍr na pronúncia francesa bacanuda dos rapazes de lá), e foi promovida com terceiras intenções pelo ditador Mobutu, um daqueles nomes que permanecem na memória escolar de quem tem 40 anos ou mais (idem para Papa Doc e Baby Doc, Rafael Trujillo, etc). Dias depois, a GNT reprisou o documentário de 1996 sobre a mesma luta, "Quando fomos reis", que mostra cenas impressionantes dos bastidores da luta e um pouco do cotidiano da população em Kinshasa, a capital do país, cenas que foram depois aproveitadas por Mann na biografia de Ali. Acontece que o Zaire, desde 1977, já não chama mais Zaire, e sim República Democrática do Congo, que foi também o nome do país entre 1964 e 1971. Pra complicar, da Independência, ocorrida em 1960, até 1964, o país se chamou apenas República do Congo. Acontece que o herói da Independência foi Patrice Lumumba, biografado num filme extraordinário chamado "Seduto alla sua destra" (“Black Jesus”, na edição americana em DVD), do mestre Valerio Zurlini, com o johnfordiano ator Woody Strode no papel do líder revolucionário preso e torturado na cadeia pelo novo regime militar que assume o país. Acontece que, antes de ser independente, o país foi colônia belga, pelo menos desde 1878, com o nome de Estado Livre do Congo, que depois, em 1908, foi alterado para Congo Belga. Acontece que o Congo Belga é o cenário de algumas das melhores e mais horripilantes histórias de Joseph Conrad, como há de lembrar o leitor do "Coração das Trevas" e o espectador do "Apocalipse Now". Acontece também que o primeiro projeto que Orson Welles propôs para a RKO, antes de "Cidadão Kane", foi justamente uma versão em câmera subjetiva da novela de Conrad. Por fim, quem leu o melancólico livro "Os anéis de Saturno", do escritor alemão W.G. Sebald, não esquece tão cedo as ignomínias cometidas pelos belgas quando estiveram por lá arrancando o couro literal dos nativos congoleses – é voz comum descrevê-las como a mais sangrenta exploração colonial do séc. 19. Do curto-circuito acima não resulta nenhuma conclusão, como se poderia esperar, mas dá pra entender um pouco melhor a atitude entusiasmada dos moradores de Kinshasa ao verem Muhammad Ali apanhar, apanhar, apanhar durante oito assaltos pra depois, com grande estilo, derrubar com um nocaute sensacional o grandalhão Foreman (sim, o mesmo das grelhas, mas isto é uma outra história).
19:12:24 - Zeno - 6 comentários

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