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Zenices

Pensamentos de Zeno acrescidos de pérolas de igual verve vindas de procedência vária.


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28 Fevereiro

Para entender a Glória Perez

Novela não tem função educativa coisa nenhuma. Novela é apenas dramaturgia vagabunda aplicada com fins de descompressão social (e, de lambuja, de algum faturamento para quem a produz). Novela não mobiliza a audiência para debater assuntos da ordem do dia simplesmente por exibi-los na trama: quando muito, cria estereótipos, tampões e mesquinharias quetais. Novela qualifica apenas para o debate de temas que oscilam do Big Brother ao casamento do Ronaldinho, além da própria novela, naturalmente. Disso não passa. Aliás, "ordem do dia" é expressão preferencial de colunistas sociais déclassés, comandantes militares e pauteiros da Central Globo de Produção —que, bobeando, pode ser a mesma gente.

Se novela tivesse alguma função educativa, as décadas de exposição maciça em que fomos submetidos a elas já teriam surtido algum efeito. Novela não educa a elite nem civiliza o lúmpen, ou vice-versa; quem quiser provas que abra a janela de casa. Se em vez de novelas tivéssemos sido expostos à mesma ração diária de telecursos de alfabetização, concertos de música de qualidade, debates, telejornalismo público, programas infantis decentes —enfim, qualquer programação que não fosse com o objetivo específico de anestesiar para controlar— teríamos, sim, alguma função educativa a auferir.

Tanto tempo desperdiçado só encontra paralelo nas faculdades de humanas, onde intelectuais da comunicação —quem?— se dedicam a estudar o negócio e tratam de mistificá-lo ainda mais. É tão menos complexo. Para começar, poderíamos melhor resumi-lo direito, chamando as coisas pelos nomes. Aqui vai a modesta contribuição deste blogue: novela é o ópio do povo e da elite também. De quem faz e de quem assiste. Simples assim.

Lembra da religião? Bons tempos aqueles.
15:00:00 - Pinto -

26 Fevereiro

Kibe cru

"Eu tinha de vir. Não cuspo no prato que comi".

Severino Cavalcanti, depois de sua passagem por São Paulo para um jantar na residência de Paulo Maluf.
10:00:49 - Zeno -

24 Fevereiro

Obsolescência

Se 95% da agência não sabem onde pôr a p***** da vírgula, como fazer a m***** da concordância, qual o sinônimo para a b**** de "ter", como escrever o c****** de uma palavra como "sido" (se com s ou com c!), que diferença eu posso estar fazendo lá?

Ou ainda: que diferença alguma isso fará para os 95% do distinto público consumidor?

Sei que meu contrato aqui no blogue não permite o uso de vocabulário chulo, mas ter trabalhado até quatro da manhã —o chefe foi para casa mais cedo assistir ao paredão do BBB com a esposa, avalie!— me deixou assim-assado.

Estou me sentindo meio que um par de polainas, uma anágua, um tubo de Corega, um Laser-Disc, uma fita Betamax, essas coisas que quase não existem mais.
12:10:24 - Pinto -

22 Fevereiro

Provérbios modernos contemporâneos atuais

Gente lesa gera gente lesa.
17:48:23 - Pinto -

21 Fevereiro

Traduções concretosas

"Par délicatesse j'ai perdu ma vie."
— Rimbaud

"Por delicadeza já perdoei a má via."
— Rambo
10:00:00 - hubbell -

19 Fevereiro

Etnografia de boteco

Ela nota que o subjuntivo faleceu, aqui em São Paulo. Eu suspeito que a causa mortis seja esta mesmo: São Paulo.

Subjuntivo pressupõe "baixo comprometimento do falante com o que está sendo dito". Quer exprimir uma possibilidade, uma condição aberta, uma hipótese ou dúvida: "Você quer que eu pegue isso?" (Eu posso pegar ou não, e por aí vai). Mas não.

Esta cidade já não tem tempo para hesitações: "Você quer que eu pego?" —e já estou eu pegando, não te dou opção de pensar, essa coisa chata de fazer nos dias de hoje, nem ponho nosso tempo a perder.

É quase uma gentileza forçada, como quase toda gentileza por aqui: "Você me dá licença que eu já vou logo pegando, toma!" É também o pináculo do objetivismo: sugere que só há uma maneira possível de pensar ante uma questão qualquer. Acho triste. E, sobretudo, feio. Ética e esteticamente feio, a cara dos nossos dias.

Sou só eu ou alguém já tinha chego a conclusão semelhante antes?
10:44:42 - Pinto -

16 Fevereiro

Guia cultural

Sabe-se pelos cartazes nos muros da cidade que Charlie Brown Jr. fará um grande show neste dia 26, em Santo Amaro. É o tipo do evento que não se pode deixar de perder.

E, inspirado pelo post da nação galopante (abaixo): sempre que puder é maravilhoso deixar de assistir também a toda e qualquer apresentação da banda J.Eqüestre.
16:19:30 - hubbell -

13 Fevereiro

Trompe-l'œil

Vista de relance, a capa da Invejinha São Paulo desta semana parece trazer, fantasiada de Barbie ciclista, a noiva do ano —e fique bem claro que aqui não se trata de Camilla Seslaf Parker-Bowles!

Em tempo: a revista revela que o sósia em questão possui seis bicicletas, mas não dá a conhecer se dispõe de igual número de bundas. Pela cara com que se deixou fotografar, julga-se que pelo menos duas haverá de ter.
01:00:00 - hubbell -

11 Fevereiro

Parental Advisory

Shania, Beyoncé, Sheena, Britney, Aaliyah, Chaka, Aretha, Sharona... e esses gringos se preocupando com o que dizem as músicas. Quem precisa de explicit lyrics com um time desses?

(Lembrei de outra hors concours, sem trocadilho: Sheila Escovedo, aquela que tocava com o Prince lá pelos idos de 1980 e poucos.)
22:59:24 - hubbell -

09 Fevereiro

Menas, meus caros, menas

A exemplo da Presidência da República, este blogue possui entre seus titulares um ex-nordestino, um ex-analfabeto e um ex-operário do ABC. Talvez por isso persista entre (alguns de) nós um certa identificação com o bom selvagem ascendido ao cargo máximo, um fascínio pequeno-burguês com a saga de superação e liderança etc. etc. etc.

Compreendo, reconheço, mas como sou um cara senil, não consigo me comover. Limito-me a achar Sua Excelência um sujeito sem instrumental suficiente para lidar com o real, donde suas metáforas medíocres e governo idem. E ponto.

Pode ser próprio da Presidência, essa coisa amorfa e absorvente, que transformou em sapo (ainda que imberbe!) até o Príncipe dos Sociólogos. Parece que quem lá chega divorcia-se do passado, qualquer que seja ele, e desposa o ramerrão do possível —ou então que me desmintam os juros de 18%. Pode ser que não. Eu queria mais, apenas não me iludia de véspera. Continuo querendo.

O argumento é complexo demais para ser exposto assim e existe sempre a tentação de ajuntá-lo às maledicências de um Diogo Mainardi ou às distorções de uma Eliana Cardoso, mas por favor me incluam fora: aqui não há dolo, e Lula continua sendo a melhor alternativa. Talvez seja justamente esse o nosso infortúnio: o melhor é muito, mas muito ruim.

(CNN News Update: façam-se minhas as palavras de Villas-Bôas Corrêa)
10:34:03 - Pinto -

05 Fevereiro

Evangélica e misantrópica

Ninguém dá mesmo ouvidos à Palavra do Senhor.

Ele disse: "Crescei e multiplicai-vos... pra ver só a merda que vai dar".

Os pessoal festejaram antes do fim da frase e fica aí o mundo, São Paulo em especial, parecendo um grande estacionamento de shopping em dezembro.

Eu quero é ir de volta pra caverna —a de Platão, de preferência.
22:22:17 - Pinto -

04 Fevereiro

Aparências, nada mais

Serei eu e minha senilidade, ou por acaso esta aqui não está ficando cada vez mais parecida com esta outra?

(crdt do título: o imortal Márcio Greyck, é claro!)
17:21:49 - Pinto -

01 Fevereiro

Um homem de visão

"La Terre vue du ciel" é um projeto de Yann Arthus-Bertrand que deu origem a uma série de bem cuidados libres d'art, que é como os franceses se referem àqueles calhamaços que ornamentam a mesinha de centro da sala de estar.

Como o nome bem diz, são fotos de paisagens tomadas de alguns metros, às vezes quilômetros, de altitude. Tem de tudo, Brasilzão incluso. O fotógrafo foi acusado de ser anti-americano, por expor inapelavelmente mazelas ambientais dos EUA em contraste com belezas naturais do resto do planeta. E o sucesso foi tal que rendeu uma edição nacional —bobeando, sai mais caro que a importada.

Pois bem. Interessante é folhear a versão (gringa, Abrams Publishers) "365 Days", com uma foto para cada dia do ano, à guisa de calendário. No dia 11 de setembro estão lá duas casas assobradadas destruídas por um tornado, justo, logo onde, no condado de Orange, Flórida.

A edição original é de 1º de setembro de 2001, dez dias antes do atentado às torres.

É de escarnecer qualquer texano que jamais tenha se achegado tão perto de um livro, ainda que só de figuras.
18:02:23 - Pinto -

Polêmica! Polêmica!

Acho a versão do Schumann (op.96) para o poema do Goethe, Canção Noturna do Viajante (Wanderers Nachtlied), muito melhor que a versão do Schubert (D.768).
Mais detalhes hoje à noite com o Pedro Bial, na cobertura do Big Brother Brasil 5 desta terça-feira.
11:19:09 - Zeno -

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