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Zenices

Pensamentos de Zeno acrescidos de pérolas de igual verve vindas de procedência vária.


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30 Maio

X-Caboclinho

Há tempos queria postar esta, em homenagem ao nosso George Smiley, fã das caipirices deste Brasilzão. Matéria no caderno Paladar, de umas semanas atrás, escrita por Janaína Fidalgo: "Perambulando por Manaus, vi dois homens descascando bolotas verdolengas até arrancarem uma polpa bem fina e de um laranja tão alaranjado de fazer inveja à escala de cores Pantone. Intrigada, segui. Ao cruzar a quarta barraca e ver a mesma cena, dei fim à ignorância. Era tucumã. Provei a carne fibrosa e me encantei com o sabor (sabe a castanha, não a fruta). Descascam e vendem às lanchonetes - oleaginoso, tinge a pele feito urucum. Com pão e queijo coalho, vira uma delícia local, o x-caboclinho."

Não é sensacional?
12:27:03 - Zeno -

12 Maio

Próxima parada

Diante de tanta opiniática, era natural esperar uma argumentação pobre de parte a parte sobre o metrô em Higienópolis: o rechaço de expressiva parcela dos moradores, ignorantes, por discriminação contra os "diferenciados" que poluiriam o aprazível bairro; de outros, ainda mais ignorantes, um suposto complô judaico contra o transporte público, fora outros absurdos derivados, num intercâmbio sem fim de preconceitos.

Mas impressiona ler a opinião de gente com suposto maior nível de intelecção, que se trai no paternalismo rasteiro e expressa uma histeria que diz denunciar, sem compreender a essência do metrô: um meio de transporte público teoricamente capaz de levar qualquer pessoa de qualquer origem a qualquer destino, isso preferencialmente a qualquer hora.

Assim sendo, não cabe na discussão argumentar deveríamos –o governo, responsável pela política pública deste transporte, bem entendido– primeiro olhar para os excluídos de regiões mais carentes de infraestrutura para depois levar a estação às regiões mais ricas. Soa igual à parábola do bolo que deve crescer antes de ser dividido.

É ingenuidade, ou má-fé, ignorar que a estação em Higienópolis atenderia exatamente a esses excluídos, sobretudo os que trabalham nas residências e comércio do bairro –uma vez os que seus moradores não se utilizam de transporte público (pelo menos aqui no Brasil), como deixou claro a associação responsável pelo abaixoassinado contra a estação. De mais a mais, se nada foi feito para expandir o metrô para áreas mais carentes, é outro fator sintomático da reação contrária que se vê.

Tampouco é honesto pretender que somente o bairro legisle sobre os destinos de um meio de transporte que interliga cidade, ou pelo menos deveria: Higienópolis não é uma ilha. Ou então institua-se um Higienopolistão de fronteiras vigiadas e tudo o mais.

Discute-se a transferência da estação para o Pacaembu, argumentando que haverá outra perto dali. Falso. O correto era haver ambas, como inicialmente previsto. A transferência vai apenas tornar o transporte mais difícil, e nada garante que os moradores do Pacaembu tomem iniciativa semelhante e a estação seja sucessivamente transferida até chegar a lugar nenhum. Precedente já houve, quando o governo cedeu à pressão de moradores do Morumbi, ou mesmo de dirigentes da USP, e mexeu no projeto da linha 4, simplesmente eliminando estações ou as transferindo para quilômetros do que fora projetado.

Sim, uma moradora foi infeliz no comentário numa reportagem ao referendar a posição da associação manifestando repulsa aos "diferenciados". Se a opinião não expressa o coletivo, não pode ser nem tomada como exemplo e nem ignorada no contexto. Higienópolis é um lugar tão bacana, urbanisticamente falando, que muita gente, eu incluso, gostariam de morar ali. Mas ao ler argumentos indigentes, dando conta do impacto do fim de um supermercado sem considerar os benefícios da melhora da mobilidade urbana e a facilidade (em relação a uma estação de trem) com que aquele comércio seria reposto noutro ponto adjacente, vê-se que aquela freguesia pode ser mais insalubre do que se imagina. Como costumamos dizer por aqui, vai ver é a água.

Aos estômagos mais sensíveis peço perdão por insistir no tema: me manifesto porque, ao contrário de muitos que escreveram sobre o assunto, sou de fato usuário e entusiasta do metrô de São Paulo –que, como disse aqui antes, fica cada vez mais inviável à medida que se expande–, e tudo o que toca o assunto me diz respeito e me atinge diretamente.

Dois artigos inteligentes sobre o tema, para contrabalançar: aqui e aqui.
10:16:25 - Pinto -

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