:: home :: posts passados :: etilíricas :: je me souviens :: microcontos ::


Microcontos

Até para o plágio é preciso talento.


.:: mês anterior :: :: :: :: April 2009 :: :: :: :: próximo mês ::.

02 Abril

Sem título

Meu sogro tem Parkinson. Não dizemos "mal de", aprendemos a dizer "doença". Convive com ela há mais de 15 anos, mas nos últimos cinco perdeu o laivo de vida com qualidade que ainda restava. Já não se move. Muito menos fala. Os músculos rijos há muito lhe roubaram a expressão do rosto, deixando no lugar uma máscara que assusta os estranhos e, pior, faz com que achem que a audição e a lucidez também se foram. Infelizmente, não. Em geral a doença está associada com alguma demência, mas ela ainda não chegou de todo.

Seu derradeiro prazer era comer, mas há mais de ano, porque já não conseguia deglutir sem aspirar para o pulmão, fez uma gastrostomia e nunca mais pôs sequer água na boca. A doença é mais insidiosa do que o relato consegue ser. E só está aqui por uma razão: em uma década de convívio jamais o vi reclamar ou sofrer. Nunca. Um ascetismo que chegava a irritar. Nem por perder a autonomia, por não poder mais estar presente aos encontros de família, nem mesmo por não conseguir segurar os netos no colo. Devia ser a fé no Espiritismo. Uma única vez, anos atrás, numa consulta com o banbanbam em Parkinson em São Paulo, testemunhei seu constrangimento por não poder realizar o que o médico, um burocrata insensível, ordenava que fizesse. Mas era constrangimento, não outra coisa. No fim da consulta deixou escapar num murmúrio quase incompreensível: "É, doutor, só piora". E foi tudo.

Até hoje. Só piorou. Internações em UTI com pneumonia, total dedicação da família e todos, absolutamente todos, os recursos em vão. Cada vez mais a prisão no próprio corpo. Cada vez mais morte em vida. Nem um lamento. Mas hoje, embarcando de volta para o Rio, sendo colocado no assento do carro, ele viu um vizinho, deficiente físico, igualmente de cadeira de rodas, fazer o mesmo sozinho, sem ajuda das cuidadoras que, 24h por dia, são seus braços, pernas, corpo, mente. A imagem de como poderia ser diferente. A saudade do que pode ter sido a última visão das filhas e netos. A consciência de que nada há pela frente, senão mais desse mesmo, na melhor hipótese. Pela primeira vez, em quase 20 anos, ele desatou a chorar.

Nós choramos juntos.
21:57:59 - Pinto -

.:: mês anterior :: :: :: :: April 2009 :: :: :: :: próximo mês ::.