:: home :: posts passados :: etilíricas :: je me souviens :: microcontos ::


.:: post anterior :: :: :: :: navegue pelos posts :: :: :: :: próximo post ::.

R.I.P. 4

Tenho procurado, por várias razões que me são convenientes, me manter à parte (não se entenda isso como neutralidade, que não há) na discussão política, mas não tenho como não me manifestar da forma mais incisiva possível diante da lambança do Estadão, que demitiu a psicanalista Maria Rita Kehl por "delito de opinião", como a própria definiu.

Isso em plena campanha eleitoral, num jornal que transformou a censura que recebeu há 400 e poucos dias em ação de marketing, saiu do armário de maneira louvável declarando voto em Serra "para evitar um mal maior" e não perde a oportunidade de denunciar supostos arreganhos autoritários do governo Lula contra a liberdade de expressão, essa que o Estadão diz prezar.

Tem alguma coisa muito errada nisso aí, ô se tem.

No Leia Mais, a íntegra do artigo "Dois Pesos...", que causou a demissão da colunista.

DOIS PESOS…

por Maria Rita Kehl, no Estadão

Este jornal teve uma atitude que considero digna: explicitou aos leitores que apoia o candidato Serra na presente eleição. Fica assim mais honesta a discussão que se faz em suas páginas. O debate eleitoral que nos conduzirá às urnas amanhã está acirrado. Eleitores se declaram exaustos e desiludidos com o vale-tudo que marcou a disputa pela Presidência da República. As campanhas, transformadas em espetáculo televisivo, não convencem mais ninguém. Apesar disso, alguma coisa importante está em jogo este ano. Parece até que temos luta de classes no Brasil: esta que muitos acreditam ter sido soterrada pelos últimos tijolos do Muro de Berlim. Na TV a briga é maquiada, mas na internet o jogo é duro.

Se o povão das chamadas classes D e E – os que vivem nos grotões perdidos do interior do Brasil – tivesse acesso à internet, talvez se revoltasse contra as inúmeras correntes de mensagens que desqualificam seus votos. O argumento já é familiar ao leitor: os votos dos pobres a favor da continuidade das políticas sociais implantadas durante oito anos de governo Lula não valem tanto quanto os nossos. Não são expressão consciente de vontade política. Teriam sido comprados ao preço do que parte da oposição chama de bolsa-esmola.

Uma dessas correntes chegou à minha caixa postal vinda de diversos destinatários. Reproduzia a denúncia feita por “uma prima” do autor, residente em Fortaleza. A denunciante, indignada com a indolência dos trabalhadores não qualificados de sua cidade, queixava-se de que ninguém mais queria ocupar a vaga de porteiro do prédio onde mora. Os candidatos naturais ao emprego preferiam viver na moleza, com o dinheiro da Bolsa-Família. Ora, essa. A que ponto chegamos. Não se fazem mais pés de chinelo como antigamente. Onde foram parar os verdadeiros humildes de quem o patronato cordial tanto gostava, capazes de trabalhar bem mais que as oito horas regulamentares por uma miséria? Sim, porque é curioso que ninguém tenha questionado o valor do salário oferecido pelo condomínio da capital cearense. A troca do emprego pela Bolsa-Família só seria vantajosa para os supostos espertalhões, preguiçosos e aproveitadores se o salário oferecido fosse inconstitucional: mais baixo do que metade do mínimo. R$ 200 é o valor máximo a que chega a soma de todos os benefícios do governo para quem tem mais de três filhos, com a condição de mantê-los na escola.

Outra denúncia indignada que corre pela internet é a de que na cidade do interior do Piauí onde vivem os parentes da empregada de algum paulistano, todos os moradores vivem do dinheiro dos programas do governo. Se for verdade, é estarrecedor imaginar do que viviam antes disso. Passava-se fome, na certa, como no assustador Garapa, filme de José Padilha. Passava-se fome todos os dias. Continuam pobres as famílias abaixo da classe C que hoje recebem a bolsa, somada ao dinheirinho de alguma aposentadoria. Só que agora comem. Alguns já conseguem até produzir e vender para outros que também começaram a comprar o que comer. O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local. A Bolsa-Família, acreditem se quiserem, proporciona as condições de consumo capazes de gerar empregos. O voto da turma da “esmolinha” é político e revela consciência de classe recém-adquirida.

O Brasil mudou nesse ponto. Mas ao contrário do que pensam os indignados da internet, mudou para melhor. Se até pouco tempo alguns empregadores costumavam contratar, por menos de um salário mínimo, pessoas sem alternativa de trabalho e sem consciência de seus direitos, hoje não é tão fácil encontrar quem aceite trabalhar nessas condições. Vale mais tentar a vida a partir da Bolsa-Família, que apesar de modesta, reduziu de 12% para 4,8% a faixa de população em estado de pobreza extrema. Será que o leitor paulistano tem ideia de quanto é preciso ser pobre, para sair dessa faixa por uma diferença de R$ 200? Quando o Estado começa a garantir alguns direitos mínimos à população, esta se politiza e passa a exigir que eles sejam cumpridos. Um amigo chamou esse efeito de “acumulação primitiva de democracia”.

Mas parece que o voto dessa gente ainda desperta o argumento de que os brasileiros, como na inesquecível observação de Pelé, não estão preparados para votar. Nem todos, é claro. Depois do segundo turno de 2006, o sociólogo Hélio Jaguaribe escreveu que os 60% de brasileiros que votaram em Lula teriam levado em conta apenas seus próprios interesses, enquanto os outros 40% de supostos eleitores instruídos pensavam nos interesses do País. Jaguaribe só não explicou como foi possível que o Brasil, dirigido pela elite instruída que se preocupava com os interesses de todos, tenha chegado ao terceiro milênio contando com 60% de sua população tão inculta a ponto de seu voto ser desqualificado como pouco republicano.

Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, dizem que votar em causa própria não vale. Quando, pela primeira vez, os sem-cidadania conquistaram direitos mínimos que desejam preservar pela via democrática, parte dos cidadãos que se consideram classe A vem a público desqualificar a seriedade de seus votos.
posted at 14:29:35 on 07-10-2010 by Pinto - Category: Eu me envergonho


Comentários

lamaindeed wrote:

A coluna é ruim e tendenciosa. "O economista Paul Singer informa que, nas cidades pequenas, essa pouca entrada de dinheiro tem um efeito surpreendente sobre a economia local" é uma piada. Imagine usar como fonte um economista do PT que "informa" o sucesso de um programa do PT, e usa "surpreendente" como medida de intensidade. Faça-me o favor.

"Agora que os mais pobres conseguiram levantar a cabeça acima da linha da mendicância e da dependência das relações de favor que sempre caracterizaram as políticas locais pelo interior do País, " bem, esse trecho é criminoso. Se ela não estivesse tão determinada a defender o bolsa família usaria um "parte dos mais pobres" e, aqui entre nós, insinuar que os pobres não tem mais relação de dependência é patético. Os caras recebem dinheiro do governo pra viver!

No mais, o Estadão já explicou pq do fim da coluna. Contrataram uma psicanalista pra escrever sobre psicanálise, que é o que ela supostamente conhece, não sobre políticas públicas, que ela certamente desconhece.
07-10-2010 14:59:46

lamaindeed wrote:

Em tempo: sou a favor do bolsa família, esse programa do Lula que juntou antigos programas do FHC em um só e que o Serra vai ampliar e dar 13o. ;)
07-10-2010 15:03:40

Cada pig no seu galho wrote:

lamaindeed,
A psicanalista deveria falar de psicanálise...
Que alegria eu sentiria se o Magnolli falasse só de geografia, se o Marco Antonio Villa só de história, se a Miriam Leitão só de economia, se o Roberto Romano só de ética...
07-10-2010 16:46:29

Calasan wrote:

...e por fim, se os jornalistas ficassem quietos.
07-10-2010 17:11:34

Pinto wrote:

Excelente, a sugestão!
07-10-2010 17:13:13

g.s,n-s wrote:

lahma, lahma, livrainos de deus e tras a brama.
08-10-2010 00:28:16

g.s,n-s. wrote:

e o estadão, eu nasci lendo, sempre teve texto assim, qdo era bão.
e melhorou muntcho c/ o grande claudio abramo.
depois que mandaro ele imbora, foi caindo, caindo...
conservador era mais inteligente antes do mecusaid.

daí fui pra folha, daí o off traiu ele, de novo -sina de trotskista- e o que era folhetim, formando toda a moçada então, virou folhateen*...

daí que só na rede se vê uns cara como vc. - grande lama - sendo livre, por si mesmo, lindo, leve e solto.

que a força esteja c/ vc.

pq. sinão, já viu né?

*já falado nas mesa dessa bagaça, iscrusive**.
**iscrusive, socorro nas pesquisa.
08-10-2010 01:39:45

g.s,n-s. wrote:

e a khel, que não é besta, confiou que aqui ainda havia o tao do liberalismo.
08-10-2010 02:03:49

Zeno wrote:

O socorro da pesquisa, isto é, a análise das idas e vindas da imprensa nacional, tá aqui, ó:

http://www.zeno.com.br/inde...

Agora, "tao do liberalismo" não tem preço...
08-10-2010 08:14:19


Incluir comentário

Este post está fechado. Não é possível adicionar novos comentários a ele ou votá-lo